Enquanto os mutirões de imunização infantil costumam registrar filas, as salas de vacina enfrentam um cenário de esvaziamento preocupante quando o foco se volta para a população adulta. Para o médico imunologista Dr. Renato Praxedes, esse distanciamento dos postos de saúde vai além do esquecimento: trata-se de uma lacuna que coloca em risco tanto o indivíduo quanto a comunidade.
Em entrevista ao portal CadaMinuto, de Alagoas, o especialista alertou que a recusa vacinal representa a rejeição de uma das ferramentas médicas mais consolidadas na prevenção de patologias de alta gravidade.
O panorama observado pelo médico reflete a realidade de todo o território nacional. Dados oficiais apontam que, em 2025, o Brasil não atingiu a meta ideal de cobertura para a maior parte do calendário nacional de imunização. O índice de 95%, patamar considerado seguro pela comunidade científica para assegurar a proteção comunitária, foi alcançado por apenas duas vacinas: a BCG (96,8%) e a hepatite B para recém-nascidos (95,1%).
De acordo com Praxedes, a negligência vacinal na idade adulta se manifesta por diferentes razões. Entre a população mais jovem, há uma falsa sensação de invulnerabilidade e a percepção equivocada de que infecções graves não os afetam. Por outro lado, a população idosa frequentemente enfrenta barreiras de acessibilidade ou desconhece que certos imunizantes são recomendados para a sua faixa etária. O traço comum entre os perfis, aponta o médico, é a tendência de subestimar a relevância da medicina preventiva.
O impacto social da escolha individual
A decisão de não se vacinar gera reflexos diretos no coletivo. Especialistas da área reforçam que manter o esquema vacinal em dia cria uma barreira epidemiológica, conhecida como imunidade de rebanho, que bloqueia a circulação de vírus e bactérias. Quando o público adulto deixa de se proteger, indivíduos mais vulneráveis — como lactentes que ainda não completaram o ciclo de vacinas, idosos e portadores de condições crônicas — tornam-se as principais vítimas.
A perda dessa blindagem social já mostra consequências internacionais no retorno de enfermidades controladas. Ao longo de 2025, os Estados Unidos contabilizaram 2.144 infecções por sarampo com transmissão ativa. No mesmo período, o Canadá registrou 5.062 casos, perdendo a certificação de país livre da doença. O imunologista ressalta que o ressurgimento de surtos não é um cenário hipotético, mas um reflexo direto da criação de grupos de pessoas suscetíveis pela queda da cobertura vacinal.
Alerta regional e a questão da Influenza
Na Bahia, o cenário exige mobilização das autoridades de saúde. Visando reverter os baixos índices e ampliar a proteção global, a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) liberou a vacina contra a gripe para todas as pessoas acima dos seis meses de idade nos 417 municípios baianos. Apesar da iniciativa, os indicadores do Ministério da Saúde apontam que, em 2026, a adesão à campanha de Influenza atingiu apenas 35% dos grupos prioritários.
Para os cidadãos que extraviaram o comprovante de vacinação e hesitam em ir ao posto de atendimento, o Dr. Renato Praxedes esclarece que não há motivo para receio. Não é necessário reiniciar todo o histórico do zero. A recomendação é comparecer a uma unidade básica de saúde para uma triagem personalizada, onde os profissionais do setor vão identificar as doses válidas e atualizar o que for necessário.
A necessidade de conscientização contínua ganhou reforço institucional com o lançamento da Caderneta de Vacinação 2026. O novo documento distribuído pelo Ministério da Saúde enfatiza explicitamente que a imunização deve acompanhar o cidadão em todas as etapas da vida. O monitoramento regular do cartão de vacinas permanece como uma medida essencial de responsabilidade social e preservação da saúde pública.

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