Mãos na cabeça. Após a ordem de abordagem, a execução dos disparos. Tiros para matar. Esse é o resumo de uma abordagem policial no dia 28 de março de 2024, na Grota do Moreira, bairro do Jacintinho, em Maceió. O homem abordado sobreviveu e denunciou: o cabo da Polícia Militar de Alagoas (PMAL) Sávio Miguel Lopes Bulhões foi quem tentou assassiná-lo. Dois anos depois, no mesmo bairro, em outra comunidade, durante ocorrência policial, um disparo efetuado por Sávio Miguel matou Amanda Ruanne Lopes da Silva, de 32 anos.
O caso de Amanda Ruanne gerou revolta na população local, questionamentos do Ministério Público de Alagoas (MPAL) e rendeu protesto na principal avenida do bairro. Wyllyane Ryelly, prima de Amanda, desabafou: “foi muita covardia, a gente não esperava a vida dela ser ceifada desse jeito”, relatou. “Ele já sacou a arma e atirou no peito dela”. A defesa do militar alega “uma situação clara de legítima defesa”.
No caso de 2024, a vítima sobrevivente relatou ter sido ameaçada de morte durante o socorro. O cabo Sávio fez, segundo a vítima, gestos indicando que ele iria morrer. O policial também teria orientado que o socorro fosse feito na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Jaraguá ao invés da UPA do Jacintinho. Para o MP, o intuito era dificultar o atendimento médico e a coleta de provas.
O Ministério Público ofereceu denúncia contra Sávio Miguel por tentativa de homicídio qualificado por motivo torpe, perigo comum e recurso que dificultou a defesa da vítima. A denúncia foi recebida em 11 de março de 2026. No último dia 2 deste mês, três dias antes da morte de Amanda, a 9ª Vara Criminal impôs medidas cautelares ao policial, proibindo-o inclusive de frequentar, até mesmo a trabalho, a Grota do Moreira e de manter contato ou aproximar-se a menos de 100 metros da vítima e de seus familiares. O impedimento não abrangia a grota onde morava Amanda.
Além da ação penal perante o Tribunal do Júri, o militar responde a processo na 13ª Vara Criminal da Capital referente a fatos ocorridos em 5 de setembro de 2024, na Grota do Estrondo, bairro do Feitosa. Exatamente um ano antes da abordagem à Amanda. Segundo a denúncia oferecida em 8 de janeiro de 2025 pela 63ª Promotoria de Justiça, Sávio Miguel e outro policial agrediram um homem durante prisão em flagrante por porte ilegal de arma de fogo. O laudo de exame de corpo de delito atestou lesões no tórax do custodiado, motivando a acusação por lesão corporal militar.
Todos os casos seguem em tramitação. Na última quarta-feira (9), quatro dias após a morte de Amanda, a Corregedoria da PM instaurou investigação para apurar os fatos acerca da ocorrência. No mesmo dia, o comando do 13º Batalhão encaminhou todos os militares envolvidos na ocorrência ao Centro Integrado de Assistência Social (CIAS), para receberem atendimento psicossocial. Já a Polícia Civil de Alagoas segue investigando a legalidade do ato do militar. Amanda foi sepultada na segunda-feira (7), em Maceió. Ela deixa dois filhos menores de idade.

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